Escrevo diretamente de Paris apos ter acompanhado o amistoso França x Brasil no Stade de France como correspondente oficial do Blogordura na França.
Primeiramente gostaria de, mais uma vez, ressaltar a diferença de organização entre o futebol europeu e o brasileiro. Oraganização que começa no momento que entra-se numa estação de metro para ir ao estadio, mesmo que seja ainda longe do destino, passa pela chegada aos portões, entrada, jogo, saida e termina no momento em que você chega na estação de metro proxima a sua casa.
Para quem mora em Paris ficam evidentes as pequenas diferenças que se nota em todo este trajeto. O Stade de France é servido por duas linhas de trem e uma de metro: RER B, RER C e linha M13. Os trens (RER) sao muito mais movimentados, pois servem não so a cidade de Paris, mas também regioes periféricas. O RER B, mais especificamente, é de extrema importancia, pois serve os dois aeroportos (ao norte o Charles de Gaulle e ao sul o Orly) cruzando Paris de norte a sul, onde faz paradas em 7 estaçoes com interligações com o Metro, dentre elas Gare du Nord e Chatelet/Les Halles, as duas maiores e mais movimentadas estaçoes da cidade.
Fiz meu trajeto para o estadio utilizando o RER B. Logicamente o fato de um amistoso estar para acontecer no Stade de France não impede que pessoas estejam normalmente voltando para casa ou indo para o aeroporto. Passageiros carregando bagagens sao comuns no RER B e é logico concluir que 40 mil passageiros com destino ao estadio possam causar problemas de transito de pessoas e superlotação. Pensando nisso foram colocados trens adicionais servindo especialmente o estadio. Trens que tinham como destino final o aeroporto Charles de Gaulle não serviam a estação do Satade de France, evitando assim a confusao de malas, torcedores, viajantes. São pequenas coisas que fazem a diferença, que tornam facil a jornada.
Ao chegar na estação La Plaine – Stade de France, encontra-se as catracas de saida todas liberadas para agilizar o fluxo e evitar multidoes. Aos que tiverem curiosidade sugiro olharem o mapa no Google para reparar que nenhuma das três estações servindo o estadio fica muito proxima (tipo no pé do estadio). Para chegar ao Stade de France andamos cerca de 600 metros, passando por diversas barracas vendendo sanduiches, refrigerantes e cerveja. Sim, cerveja, porque também é aparentemente mais do que claro para os organizadores que situações violentas sao causadas pelo acumulo de pessoas, por multidões, não necessariamente por cerveja. Por causa disso todos os esforços sao no sentido de evitar grandes acumulos de pessoas, não simplesmente na tomada de medidas faceis mas com eficacia duvidosa.
O estadio tem entradas em todo seu entorno, que dão acesso a um anel térreo aberto para toda a circunferencia das arquibancadas. Nossa entrada era a U dentre portões que vao de A a Z. Isso significa que, dos 80 mil torcedores, cada entrada recebe não mais do que 2 mil. Logo, a fila para entrar e passar pela revista não leva mais do que 10 minutos.
O interior do Stade de France é lindo, além de ser muito pratico. O estadio tem dois anéis internos e o acesso a ambos é feito através de grandes escadas que servem um unico anel externo, do qual pequenas escadas sobem ou descem para os anéis internos. Neste anel externo elevado é que se encontram as lanchonetes e banheiros (achei que tem poucos banheiros, mas a verdade é que tem muitos outros meio escondidos que so descobri depois de 10 minutos na fila). A cerveja é vendida em 500 ou 300 ml em copos retornaveis. Cada copo vale 1 euro e a cerveja grande custa 5 euros. Caro para os padroes brasileiros, mas justo para Paris, ja que um pint em qualquer bar não sai por menos de 4 euros, isso em bares meia-boca no happy hour (até 20:00 hs).
Apesar do anel externo elevado, assim como o anel externo térreo, dar acesso a todos os setores do estadio o torcedor que compra um bilhete atras do gol senta atras do gol. Todo mundo respeita os lugares numerados. Não sei se isso so acontece em amistosos ou jogos internacionais de seleção. Na verdade o Stade de France não recebe jogos de clubes, e não sei se os lugares sao respeitados nesses jogos onde quer que eles aconteçam. Fato é que não importa se seu lugar é o melhor do estadio, você pode chegar um minuto antes do jogo começar que ele estara la, vago. Essa foi a terceira vez que fui ver um jogo no Stade de France (França x Espanha pré-copa; França x Italia Rugby; França x Brasil) e em nenhuma delas vi qualquer confusao por causa de lugar marcado. Eles simplesmente respeitam o lugar que compraram e a impressao é que o fazem não porque acham errado não faze-lo, mas simplesmente porque nem passa pela cabeça deles o contrario. Leia-se por “eles” todos os torcedores, incluindo-se os brasileiros que eram muitos. Quando em grande numero, o ser humano tem comportamento de bando. Quando o bando não é civilizado, ha de se ter uma educação muito solida para permanecer correto. Quando o bando é todo muito civilizado, nem passa pela cabeça fazer algo diferente.
Chegar ao estadio, entrar e sentar é facil e é como ir ao cinema ou ao teatro. Em momento nenhum você é tratado como torcedor, mas sempre como cliente. E é para um cliente que é feito o espetaculo. O programa não se resume a simplesmente uma bola e 22 jogadores (o que é mais do que suficiente quendo trata-se de um Arsenal x Barcelona – jogão pela Champions essa semana), mas inclui musica, videos, mestre de cerimonia, bandeiras. Tudo é muito bem ensaiado e bem executado no pré-jogo, e isso é importante. Não da para deixar todo o entretenimento para o jogo. Afinal, vez ou outra o Zidane esta na platéia e o Renato Augusto no campo. Nesses casos é legal ter se divertido um pouco antes do apito inicial.
O jogo – Não tenho muito o que comentar a não ser que o Renato Augusto é péssimo, o Hernanes foi muito burro e o David Luiz é um monstro. A verdade é que o jogo estava muito chato até a expulsão. O Hernanes salvou o espetaculo, apesar de ferrar com o Brasil. Interessante foi que nos dez minutos finais a torcida francesa estava vaiando os Bleus porque estavam tocando a bola para tras. Os caras querem ver gol! Ataque! Não importa apenas ganhar, apesar de que ganhar do Brasil os leva a loucura. Allez les Bleus! Vamos Azuis!
Ao final da partida é impressionante como o estadio esvazia rapido. Em 5 minutos não tem mais ninguém nas arquibancadas. Demorei uns 10 minutos dentro, pois meu lugar era logo acima da area reservada para imprensa. Fiquei vendo os lances nas TVs dos reporters além de acompanhar a gravação do pos-jogo da SporTV com Milton Leite e P. C. Vasconcellos.
Saindo do estadio a chegada ao trem é um pouco conturbada, pois a entrada para as estações é bloqueada e o fluxo de pessoas é liberado em lotes. Irrita um pouco ter que esperar uns 10 a 15 minutos para conseguir entrar, mas o motivo faz sentido. O acesso para as plataformas é controlodo para evitar tumultos que possam derrubar alguém nos trilhos. O jogo começou as 21:00 (o horario de costume para esse tipo de jogo) e terminou perto de 23:00. Em dias de semana os trens funcionam somente até 00:00, o que seria um problema para o retorno do estadio. No entanto, no dia do jogo os trens funcionaram até 1:00.
Resumindo, sai do trabalho as 19:15, cheguei no estadio as 19:55, comi um sanduiche, entrei as 20:20, tomei uma breja, vi o jogo, sai do estadio as 23:10, cheguei em casa 00:15.
Tempo em transito: 1:45 h
Tempo de diversão: 3:00 h
Nivel de stress: 0
Nas três ocasiões em que fui ao Stade de France os numeros acima foram similares. Claro que não é justo comparar 3 situações de jogos de seleções, dois dos quais amistosos, com as dezenas ou centenas de vezes que fui a um jogo de futebol no Brasil, ja que nestes casos eram jogos entre clubes rivais em campeonatos regionais. Mas acho justo comparar, por exemplo, com situações em que fui em shows no Morumbi ou jogos de uma torcida so pelas fases iniciais da Libertadores. Em nenhum caso eu me lembro de ter levado menos do que 1:30 h para chegar ao estadio, de não ter tido medo de ser roubado, de não ter a duvida constante se vou encontrar meu carro onde o deixei, de levar menos de 1:30 h para voltar para casa. Isso sem contar as inumeras vezes em que fiquei 30 a 40 minutos na “fila” para entrar, sendo emagado e tendo que aturar valentões furando a fila sabendo que estou perdendo o inicio do jogo, ou o fato que nunca consegui ficar no lugar estipulado no ingresso (com exceção de uma vez que fui no setor Visa vermelho no Morumbi, quando consegui sentar no lugar estipulado, apesar de ter visto diversas discussões e brigas por causa disso).
Resolvi escrever este texto com esse enfoque por dois motivos. Primeiro porque todos viram o jogo, não faria sentido eu comenta-lo. Segundo porque o Brasil vai sediar uma copa dentro de pouco mais de 3 anos. 3 anos! Eu não vejo a possibilidade de um unico evento esportivo ser realizado na cidade de São Paulo seguindo esse nivel de organização geral num prazo menor do que 10 anos, quiça outras cidades brasileiras, ainda mais quando falamos de uma copa inteira, e não um jogo apenas.
Não é uma questão de primeiro ou terceiro mundo, é uma questão de realidade. O Stade de France custou 290 milhões de euros e levou 2 anos e oito meses para ser construido. Quase 15 anos depois os custos devem ser maiores e os prazos menores. A pergunta que fica não é novidade para ninguém: quantos estadios deste porte o Brasil tera que construir, visto que não temos nenhum. Como fazer com o transporte? Como fazer com que 80 mil pessoas saiam das regiões da Paulista, Berrini e Faria Lima (onde estão concentrados os hotéis) para a extrema zona leste ou mesmo para o morumbi. No caso do Rio, como levar 80 mil gringos de Copacabana, Leblon, Ipanema e principalmente Barra (que é longe pra caramba) para o Maracanã. Isso tudo se Maracanã e Fielzão estiverem prontos. Pelo menos o Maracanã ja começou. Pior que tudo isso, onde vão se hospedar 40 mil pessoas em Manaus? Como estas pessoas vão chagar la? Como 300 mil pessoas vão desembarcar no Brasil em 1 semana (a Africa do Sul registrou entrada de 310 mil estrangeiros)? Por Galeão e Guarulhos? Significa fazer pousarem 50 Boeings 747 por dia em cada aeroporto durante 1 semana e embarcar cada passageiro com sua respectiva conexão. Alguém consegue ver isso acontecendo em 3 anos?
A conclusão é simples. O que foi feito na França 15 anos atras não vai ser feito no Brasil num prazo menor do que 10 anos, na mais otimista das previsões. Não estamos preparados para receber uma copa, assim como a Africa do Sul não estava.
3 comentários:
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Ótimo texto Turquito...
fui no jogo ontem, 14 mil pessoas, SPFC X Bragantino. Demorei 30 min, de ônibus, da minha casa para o Morumbi, cheguei com 1 hr de antecedência, comprei o ingresso em 5 min e entrei em mais 5 min. Lá dentro veindia nhoque por R$7,00...
Olha, parece mto pouca gente, mas dos 14 mil pelo menos 8 mil estravam no mesmo setor q eu, e a entrada foi bem sussa.
Acho q no Brasil a maioria das vezes é péssimo mesmo, concordo com vc. Mas usando o transporte público, e chegando com antecedência, principalmente, não fica tão escroto. Ainda anos-luz de um padrão Copa, mas melhor q jogos de Libertadores às 22:00 hs...
Na volta demorei mais 30 min até minha casa...
Enfim, sai de casa às 17:50, cheguei ao Morumbi 18:20, o jogo foi 19:30,sai, tomei um café e cheguei em casa às 22:20.
Mas a única diversão era o jogo, e a constatação principal é q o Lucas é bem melhor que o Renato Augusto.
Eh Beets, mas vc mora a um corredor de onibus do estadio. Quantas pessoas tem essa facilidade?
Talvez essa seja a razao de o publico medio nao ser maior que 15 mil pessoas.
Fora que 15 mil pessoas é um publico que o sistema de onibus do corredor F. Mourato - Rebouças suporta. O que eu nao me conformo é quando em jogos para 60, 70 mil pessoas o numero de onibus dos corredores que servem o estadio é quase o normal. Ai fica impossivel. Nessas ocasioes tem que duplicar ou triplicar o numero de onibus servindo as regioes do entorno. O problema é que no Brasil nao ha nenhuma articulaçao entre poder publico, sistema de transportes e organizaçao dos eventos.
Falta nao soh competencia. Falta vontade.
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