quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poker dimensional - 11/10/11

Em 2030, o cientista americano Donald Trishman (foto) ganhou o prêmio Nobel de física por suas descobertas sobre viagem dimensional e interações pan-presenciais. Seguem fragmentos do discurso de Trishman na cerimônia de entrega do prêmio em Estocolmo.

"Prezados membros na comunidade científica, prezados membros da fundação Nobel, prezados colegas e família, é com imenso prazer e orgulho que me encontro aqui hoje, neste palanque.

Para chegar até aqui, neste palanque, me levantei do meu lugar, dei doze passos e cheguei. E a relatividade nos mostra que apesar desse ter sido o meu caminho, o meu caminho foi outro. O meu caminho foi vários.

Talvez o mais marcante dos experimentos, o mais decisivo para publicarmos o que publicamos, foi o menos divulgado. É o que eu chamo de experimento CEB.

Em 2011, meu então aluno de doutorado John O'Riley criou um portal dimensional nunca antes imaginado por qualquer físico. John era um aluno genial e hoje é um professor inspirador. Gostaria de pedir uma salva de palmas a ele. Pois bem, tínhamos uma ferramenta incrível, mas faltava um local para aplicarmos. Precisávamos de um local cuja rotina fosse rígida e constante, para que pudéssemos medir parâmetros objetivos sobre as possíveis alterações espaço-tempo-comportamentais que nossa interferência fosse capaz de acarretar. John havia passado muito tempo vivendo no Brasil e sugeriu que aplicássemos o portal em um local que abrigava uma jogatina semanal havia muito tempo. Mais precisamente 292 semanas. O local se chamava CEB. Perfeito!

Após estudarmos à exaustão os padrões de espaço-álcool-chucrice-tempo naquele local, instalamos secretamente o portal dimensional na porta do CEB e logo vimos resultados surpreendentes e empolgantes.

A quantidade de latas de cerveja nessa nova dimensão triplicou. Apesar de haver indivíduos em número suficiente para a formação de duas mesas de jogo, foi estipulado por um colega sueco de vocês que haveria apenas uma mesa. Havia um ser humano que nunca havia estado naquele recinto nas 291 semanas anteriores, mas que ali estava e dizia conhecer o indivíduo equatoriano há muito tempo, mesmo sem nunca tê-lo visto. Um indício claro do que descreveríamos 10 anos depois como o fenômeno dos múltiplos encontros dimensionais. Neste fenômeno, as diferentes dimensões coexistem de forma concêntrica, ligadas por um rígido centro de energia densa, como as ranhuras em um prato de bateria.

E não parou por aí. A cada 20 minutos, apenas três ou quatro mãos eram jogadas e o barulho era cada vez maior. Aqueles que normalmente tentavam colocar ordem no jogo, segundo definido por nossos estudos da dimensão normal, agora não davam nem bola para o caos que se estabeleceu. Para se ter uma breve idéia, o indivíduo manco estava altamente alcoolizado e disse "quer saber? Agora eu vou causar". Com esse objetivo ele derramou cerveja na mesa, deu mini-desmaiadas com a testa apoiada no feltro, demorava anos-luz para decidir suas jogadas.... e ninguém notou! Ninguém chegou a se incomodar com o comportamento mais causador de discórdia de todas as outras 291 semanas! Em determinado momento este jogador manco tentou até organizar o jogo, pois o caos estabelecido era grande demais até para seus próprios padrões.

Estava claramente definido também que o fenômeno second chance é único para cada jogador. Entretanto, na nova dimensão, uma discussão inédita foi proposta: "É único, ok. Mas é intransferível?". A conclusão foi que o equatoriano fez duas second chances, mas uma delas foi comprada do jogador Bonifaciano.

Imaginem a empolgação em que estávamos no laboratório ao observar todas essas consequências da nova dimensão! Infelizmente nossos aparelhos de medição não eram tão avançados como os de hoje. Tínhamos apenas 2 Terabytes de armazenamento dinâmico. Isso prejudicou o nosso entendimento da situação, principalmente quando houve o que chamamos de tempestade de dados.

Uma tempestade de dados ocorre quando uma nova dimensão é alterada em tamanhas proporções que coloca em risco a existência da própria dimensão e a de outras dimensões pré-comunicantes. Claro que não sabíamos disso na época e por pouco não causamos um desastre.

A tempestade se deu quando um novo jogador entrou na mesa, no blind 40-80. Seu nome era Tapete. É a única coisa que sabemos com certeza. Depois disso o nosso leitor dimensional pifou. Após tentarmos recuperar os dados perdidos, ficamos encalhados em informações desconexas: boné, Liberdade, cartão de visitas chinês, 10 anos, CEB, poker. Sabemos hoje a constante que reúne essas variáveis chama-se Rossi, mas não entendemos o significado de tudo isso.

Como a nossa aparelhagem não funcionava mais, tivemos que desligar o portal e a dimensão regular foi restabelecida, o que foi comprovado pelo fato de o vencedor ser o de sempre.

Fico feliz em compartilhar essa história que não entrou nos artigos ou livros. Agradeço a todos que me ajudaram nessa trajetória."


Bola cheia: Tapete.

Bola murcha: Tapete.

8 comentários:

Anônimo disse...

Que bom que eu não fui o único que achou que a porta da cozinha era uma entrada pra outra dimensão!

Tonhão disse...

Por um motivo de chucrisse trans-dimensional, não consegui assinar o comentário anterior.

Turquito disse...

Exijo explicaçoes!

Mauro, o palhacinho disse...

Eu não tenho capacidade didātica para tal feito.

Lipe disse...

Só em outra dimensão para AQ perder para 72.

O negócio é varrer a sujeiro pra baixo do tapete.

marcola disse...

por mais incrível que possa parecer, o poker da semana passada foi, disparado, o evento mais bizarro que eu já participei na Bio. E olha que deixar as histórias da corrida de minhoca e a dupla Jorgim e Facada para trás não é bolinho não!


p.s. "A China tem o maior problema indígena do mundo", by amigo X do Tapete.

Lipe disse...

"Qual a árvore que não tem nós?

- Tom Jobim"

Tapete et al.

Tonhão disse...

Ah, se soubessem o que o Oséas já fez com a Eva Wilma...