segunda-feira, 28 de março de 2011

BeetsMania especial – Rogério Ceni gol 100

Prezado leitor Blogordurense,

Decidi paralisar meu ano sabático e voltar a escrever neste tão querido espaço por conta dos extraordinários acontecimentos do último domingo, 27 de março de 2011.

Para quem não vive no planeta Terra, ou não gosta de futebol, ou simplesmente não quer lembrar, neste domingo ocorreu mais um clássico entre São Paulo Futebol Clube e Sport Club Corinthians Paulista, o chamado Majestoso. Após 75 anos desde o primeiro encontro entre os dois clubes, que atualmente formam a maior rivalidade do futebol paulista, as duas equipes se encontravam em um jogo que poderia ser marcado pela história. Não pela importância do confronto, que não vai influenciar no transcorrer do Campeonato Paulista, mas pela oportunidade do grande ídolo tricolor, Rogério Ceni, marcar seu centésimo gol. Um goleiro, marcando seu centésimo gol, contra seu maior rival, no ano do centenário deste.

Seria mesmo muito legal. Seria incrível. Seria histórico.

Para colocar fogo extra no jogo, o Corinthians vinha de 11 jogos e/ou 4 anos de invencibilidade, o que colocava mais pressão nos tricolores. O Corinthians tem a chance de se aproximar do maior tabu do clássico: 14 jogos sem derrota do São Paulo frente ao Corinthians, entre 2003 e 2007. Vencer o maior rival, marcar o gol 100, acabar com o tabu.

Seria muito mais que legal. Seria muito incrível. Seria muito histórico.

Sendo assim, eu e meu fiel comparsa Cauan decidimos na sexta-feira a noite que deveríamos ir até Barueri, local do jogo devido a um concerto de Rock no estádio Cícero Pompeu de Toledo. Compramos nossos ingressos pela internet e passamos o sábado na expectativa do grande jogo. Domingo de manhã acordo em Bragança, tomo o ônibus e chego à SP por volta do meio dia. No metrô já observo são-paulinos indo à Barueri. O frio na barriga e a expectativa aumentam. Já em casa, aguardo paciente meu comparsa, que obviamente, se atrasa. E ainda tem a pachorra de me fazer um pedido especial: “Beto, você pode me pegar de carro no metrô, aí vamos direto?”. Bom, seria um pedido normal vindo de alguém que conheci ontem, mas não um animal que me conhece desde os 12 anos e sabe de minha, digamos, dificuldade de locomoção automobilística. Mas esse pequeno empecilho não atrapalharia os planos de assistir in loco o momento histórico. Tomo coragem e assumo o comando do Horácio, o belíssimo Peugeot 106 verde, 1995, que nos levaria ao nosso destino. Assim, ando sem dificuldades os 7 quarteirões que separam a casa da Rachel do metrô Chácara Klabin e me encontro com o Cauan.

Passado o primeiro desafio, agora precisamos tomar o rumo da Arena Barueri. Por precaução, nenhum dos dois portava o manto tricolor, e, óbvio, o Cauan assumiu o volante. Durante o trajeto apenas duas preocupações tomavam conta de nossas mentes: 1) a possibilidade de presenciar uma guerra entre de torcidas organizadas no meio da Rodovia Castello Branco ou 2) o Horácio ter algum problema mecânico no caminho. Porém, rapidamente as preocupações se foram. Os 25 km até Barueri foram extremamente tranquilos, com destaque para o desempenho animador do Horácio.
Chegamos às cercanias do estádio e tivemos uma (boa) surpresa. Agentes da CET de Barueri, que tem um outro nome que eu não lembro, organizavam (bem) o trânsito e até falavam onde poderíamos estacionar, sem a presença dos adoráveis flanelinhas. Horácio devidamente estacionado, ingresso na mão, vamos ao jogo. Não sem antes comprar uma cervejinha e ir tomando na caminhada.

Revista rápida, policial muito educado (mais uma boa surpresa), rapidamente adentramos a bela Arena Barueri. O estádio é realmente muito legal, pequeno, mas com todos os lugares numerados, próximos ao campo, mas com excelente visão. Sentamos no exatamente no centro do campo, nas cadeiras inferiores azuis, cobertos pelas cadeiras superiores (o céu indicava que uma tempestade cairia a qualquer momento), com tricolores exaltados por todos os lados. Ou não. A nossa frente dois sujeitos, provavelmente pai e filho, um com cerca de 50 anos e o outro com cerca de 25, não estavam com camisas do São Paulo, não cantavam nada e insistiam em pedir para as pessoas a sua frente, que torciam animadas, sentassem. Estranhamos, mas tudo bem, podiam ser só chatos.

Começa o jogo, equilibrado, tenso. Até que aos 40 minutos Dagoberto faz o primeiro gol. Comemoração efusiva nas cadeiras, todos gritam e se abraçam. Exceto os dois a minha frente. Concluímos o óbvio, se tratava de dois gambás a paisana. Bom, honestamente achei isso o mais legal de tudo. Obviamente também, não contamos a ninguém que eles eram corinthianos. Acho que eles têm tanto direito de estar ali quanto eu, ele pagaram ingresso e estão sentados. Acho até que eles poderiam ir de camisa se quisessem, mas era melhor não espalhar, porque sempre tem um idiota que quer partir para a agressão.

Segundo tempo começa, Rogério faz um milagre com 2 min e o jogo pega fogo. Aos 8 Fernandinho sofre falta próximo a área, do lado esquerdo, local predileto do arqueiro tricolor. O momento da marcação da falta foi surreal. Parecia que havia sido marcado um pênalti. Todos comemoravam e se abraçavam muito. Os corinthianos na nossa frente colocaram as mãos na cabeça, e cochicharam algo como “só falta essa cara fazer o centésimo gol na gente”.

Cobrança de falta. Perfeita. No ângulo. Na gaveta. Gol. Catárse na Arena Barueri. Caos total, comemoração maluca. Caímos abraçados, umas 4 pessoas (eu, Cauan e mais dois que estavam perto), em cima dos pobres corinthianos. Nesse momento todos já sabiam o segredinho da dupla. Mas ninguém se importava, era só festa. A partir desse momento a dupla sofreu. Cantávamos cada vez mais alto, e cada vez mais próximos deles. Invadíamos as cadeiras deles cantando o hino, xingávamos o Corinthians, o Tite, o Alessandro, o Ronaldo, a Globo, a Gaviões, tudo na orelha deles. E cantávamos o hino, músicas para o Rogério, músicas para o Dagoberto (!), para o Fernandinho (!!!), até para o Rhodolfo (!!!). Qualquer lateral era comemorado. Ok, sei que foi um pouco de covardia (como eles iriam defender o time deles), mas ninguém agrediu eles, fisicamente ou verbalmente, nem tentou expulsar eles ou algo do tipo. No final, fiquei surpreso com a civilidade de todos ao meu redor.

Alessandro foi expulso, o Dentinho fez um gol, Dagoberto foi expulso, Dentinho foi expulso, o jogo ficou maluco. O Corinthians lutou muito até o final, dignamente, na bola, é bom salientar. Mas o São Paulo segurou o resultado, com destaque para a defesa incrível do Rogério na puxeta do Liédson nos acréscimos. O juiz deu 6 minutos adicionais, justos pelo caos que foi o segundo tempo. Marlos ainda perdeu dois contra-ataques e me fez sofrer até os 51 minutos. Os corinthianos foram embora um pouco antes, “homenageados” pela galera ao nosso lado, com gritos como: “Fica Gambá”, ou “Vai chorar em casa”, mas nada mais agressivo que isso.

Saída do estádio, e todos em festa. Mais uma cerveja, entramos no Horácio e rumamos pra casa. Um ótimo domingo de futebol, com muitos são-paulinos e (dois) corinthianos vivendo uma pequena harmonia. Infelizmente não acredito que seria igual se o Corinthians ganhasse.

Foi mesmo muito legal. Foi mesmo incrível. Foi mesmo histórico.

Um abraço, até depois da tese, Beets.

4 comentários:

Turquito disse...

IRADO que vc foi!! Animal!

Beets disse...

Faltaram alguns antigos companheiros (você, Lucas, Marcelo, Brunão, Thiago), mas não dava p perder!

Mauro, o palhacinho disse...

Texto muuito bom, beets! Parabéns pelo relato.

Um dos melhores posts da história desse blog.

Tonhão disse...

Palavras do dia: catárse e puxeta.